Real Airmanship

...não importa por qual parâmetro se aborde este evento, é forçoso reconhecer nele uma enorme manifestação do que os americanos chamam de "airmanship". Uma façanha aérea! Lembrá-la é não só um tributo às qualidades técnicas e profissionais da tripulação, mas, também, à robustez e desempenho de um grande avião. Em NOV84 o Primeiro Grupo de Aviação Embarcada estava realizando um embarque de 'catrapo' a bordo do Minas Gerais. Os 'catrapos' eram embarques destinados à qualificação e requalificação das tripulações, para as operações aéreas a bordo de porta-aviões. Elas consistiam na sempre tensa repetição (sempre tensa, acreditem) de pousos e decolagens, muitas vezes com até quatro aviões no ar, simultaneamente, que se revezavam no uso do convés de voo. Estes embarques eram, também, uma oportunidade importante para que os Oficiais Sinalizadores de Pouso (OSP), mantivessem, adquirissem e readquirissem suas qualificações. A manutenção operacional das habilidades daqueles homens era uma epopeia por si só, devido aos muitos milhares de pousos que eles tem que assistir e dirigir. Isso era muito difícil no Brasil, em virtude da existência de apenas um porta-aviões, e uma única unidade aérea embarcada de asas fixas. A norma era recorrer à assistência da Marinha Estadunidense, solicitando que os nossos OSP realizassem estágios em bases aeronavais e navios daquele país. Fosse como fosse, em 21NOV84, durante a execução de um toque-e-arremetida, com o Capitão Couto Dias e Tenente Euclides aos controles, o 7035 foi vítima de mais uma perna de força do trem de pouso principal, adquirida fora dos parâmetros. Uma fratura catastrófica provocou o colapso do trem de pouso de bombordo. Como lembrou o então Tenente Mounir, Oficial de Segurança de Voo do Grupo: "Durante a investigação realizamos um teste de dureza e foi detectado uma falha, e todo o lote de trem de pouso foi refugado."



Ao examinar esta foto, repare que para o toque-e-arremetida, o avião vinha alinhado com o faixa larga, que corta a foto da DIR para a ESQ, a linha central da faixa de pouso. A falta de atrito/componente lateral resultante da quebra do trem, jogou o 7035 para um alinhamento com a marca-guia das decolagens livres, a faixa estreita bem visível sob o trem dianteiro, que vem da popa, e intercepta a linha central do convés em ângulo, que está a 8,5° desviado para a ESQ do eixo longitudinal do navio. Acho que nem mesmo os pilotos podem lembrar da luta de fração de segundos que eles travaram, coordenadamente, com o avião avariado, para trazê-lo ao alinhamento, como se vê que fizeram, nas fotos seguintes.



Seja como for, e quase inacreditável como possa parecer, antes que o avião colidisse com o convés-de-voo, os pilotos foram capazes de aplicar potência aos motores, e retomar o voo! O então Tenente Jader: "Lembro que eu também estava fazendo voo de 'catrapo' na ocasião. Fui orientado a acompanhar a aeronave avariada até a BASC. Durante o deslocamento pude observar que o trem de pouso esquerdo estava, realmente, 'girado' a 90º com o eixo do avião. Chegando em SC pousei primeiro e o 35 fez algumas passagens para que observassem o trem. Pouco depois foi reportado que o motor estava vibrando muito e fariam um pouso mono motor . E assim foi feito."





De fato, recobradas as condições de voo e controle do avião,
tomou-se a decisão de rumar para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde as equipes de emergência foram preparadas para receber o avião e a tripulação em apuros. O pouso ocorreu monomotor, em virtude da hélice ter, de fato, tocado o convés de voo do Minas Gerais no momento originário do acidente, quando se deformou. A deformação da hélice produziu a elevação do nível de vibração no motor ESQ, razão pela qual a tripulação, a certa altura, optou por desliga-lo, e embandeirar sua hélice. Já sobre Santa Cruz, segundo o então Sargento Mário Sérgio, do ESM da BASC, o avião “[...] ficou circulando na vertical da Base, queimando combustível, enquanto saíamos todos do hangar e nos posicionávamos para assistir ao pouso 'saci'. Segundo o Mário Sérgio, o alerta para o pouso de emergência já identificava que o 7035 havia ficado avariado a bordo do navio “[...] nos foi dito [...] que a aeronave quebrara o trem esquerdo no navio.” Por fim a tripulação executou algumas passagens baixas sobre o pátio "W" da Base, para que o pessoal em terra pudesse fazer uma avaliação visual dos danos, e melhorar os prognósticos para o pouso. No grupo do FB dos veteranos da Embarcada, o então Tenente Peclat registrou: "...Queriam mandar os pilotos pousar sem trem mas eu mostrei que [justamente] a primeira página do manual de emergências mostrava um P-16 pousando com a perna de um dos trens recolhida, e uma hélice embandeirada..."



Prestes a realizar o pouso, um dos rasantes sobre o Pátio Oeste. Pode-se perceber o trem de pouso ESQ torcido em 90°, em relação à sua posição normal de recolhimento. Pode-se perceber danos na ponta da asa ESQ, devido ]á colisão com equipamentos do convés de voo do Minas Gerais.




Os mecânicos já instalando o estropo, que permitirá o içamento do avião. Repare nas pás da hélice ESQ, completamente embandeiradas, e com as pontas tortas.



A fratura da perna de Força. Se eu não tivesse faltado a tantas aulas de ortopedia, diria que lembra uma fratura da cabeça do fêmur, num ser humano.

Portanto, de acordo com o manual de voo do P-16, o pouso foi feito sobre uma perna só, ao invés de um pouso "de barriga". Claro, descartando a obviedade do avião ter sido incapaz de manter a reta, após a desaceleração, e ter saído da pista, tudo ocorreu sem maiores aflições. O 7035 foi reparado e voou por quase onze anos mais, quando sofreu um incêndio a bordo do Minas Gerais, em 1995. Desta vez, foi recolhido em voo ao PAMA-SP, onde a desativação da frota o colheu, em DEZ96... Todas a s imagens foram escaneadas diretamente dos negativos; as primeiras fotos são reproduções de fotogramas do filme das operações aéreas, feito a bordo, e são obra do Suboficial Castilho, fotógrafo do Grupo. Em Santa Cruz, o então Sargento Cinello, também servindo à Embarcada, realizou a dramática cobertura da chegada do 7035...





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