O problema que é, um problema congênito.


...um porta-aviões tem elevadores para muitas funções, mas, o mais comum é referirmos a elevadores, quando falamos das grandes plataformas que permitem a transferência dos aviões e helicópteros entre o hangar e o convés de voo, e vice-versa. Há elevadores que são colocados pelas bordas do convés de voo, e há os elevadores centrais, ou seja, posicionados sobre o eixo longitudinal do navio. Eles se tornaram um problema quando se precisou modernizar os porta-aviões pelo mundo, durante a década de 1950, incorporando-lhes pistas de pouso em ângulo, catapultas a vapor e espelhos de pouso.
Um dos elevadores de armamento do USS América sendo utilizado para levar para baixo os corpos de alguns marinheiros do USS Liberty, mortos durante o ataque israelense àquele navio, em JUN67. Foto de Bill Ray para a LIFE.

A operação dos elevadores centrais impede as operações aéreas e, por sua vez, as operações aéreas impedem o seu uso; o diabo é que os navios da classe Colossus, operados pelas marinhas da Argentina (2), Austrália (3), Brasil (1, o Minas Gerais, Ex HMS Vengeance), Canadá (2), França (1), Holanda (1) e Índia (1), tinham dois elevadores deste tipo, e ninguém encarou o custo e o desafio de engenharia de tirá-los de onde estavam. De toda a maneira, não apenas os Colossus que serviram à marinhas estrangeiras, mas mesmo os navios desta classe operados pela Royal Navy durante a década de 1950, que não foram modernizados/reconstruídos, ainda tinham que lidar com o problema adicional dos cabos de parada estarem posicionados sobre o elevador de ré.

Foto do "Histórico Fotográfico" do GAE, digitalizado pelos Monteiro, Atahyde e Fonseca, da Seção de Inteligência do 4º/7º GAv, a unidade que ocupou pessoal e material do 1º GpAvEmb, após a desativação. A disposição dos cabos de parada distendidos adiante do elevador é evidente. Ela é de 1965, mas não é do primeiro embarque, talvez nem do segundo. Reparem que os aviões já tem pintados "FAB" nas portas do trem de pouso dianteiro, onde originalmente se colocara os dois últimos dígitos da matrícula de cada avião. Eu acredito (ninguém me disse, nem li em parte alguma) que a medida se deveu à questões de RP, uma vez que nada identificava os aviões como sendo da Força Aérea, quando fotografados de frente, a bordo (e os aviões ERAM da FAB, e NÃO ERAM, da Marinha; que ficasse bem estabelecido!).

O potencial de encrenca que o arranjo trazia consigo fica evidente na foto P&B, no topo do artigo. Nela aparece um  helicóptero inglês da Fleet Air Arm com o nariz amassado pelo recuo inadvertido de um dos ditos cabos; evidentemente que alguma coisa deu errado, "deu pau", no jargão marinheiro. Infelizmente eu não sei de onde tirei essa foto. Eu desconheço qualquer incidente desta natureza a bordo do Minas Gerais, contudo. Por certo que os homens do Primeiro Grupo de Aviação Embarcada, que frequentaram o convés de voo do velho "Mingão", operacionalmente, entre 1965 e 1996, lembram que quando era necessário utilizar a plataforma de ré, o pessoal de Marinha tinha que executar, com a força de dois, ou mais, tratores de reboque, a faina de distender os cabos cinco e seis para diante, fora da área do elevador, e travá-los com pinos colocados em aberturas no convés.

Outra foto minha, feita entre NOV/DEZ95, em águas argentinas, durante a ARAEX daquele ano. Reparem no pino de retenção dos cabos perto do vértice do poço do elevador. Na foto em P&B de 1965, acima, eu não consigo ver evidência do emprego destes pinos. Talvez, tenham sido adotados mais tarde. Voltando a 1995, naquele ano, devido ao enganchamento acidental de um Super Etendard no ano anterior, quando aqueles jatos vieram para seus toques e arremetidas, encontraram o convés de voo sem os cabos.

Uma foto que eu tirei dos tratores de reboque que o Minas embarcava, enquanto puxavam um dos cabos de parada numa das inspeções diárias do equipamento, entre os dias 14 e 22AGO89. A cena seria a mesma, no caso da liberação da plataforma de ré.
No caso do Minas, os ciclos pouso/decolagem eram bastante espaçados, pela natureza da missão ASW, que mantém os aviões longas horas afastado do navio, dando tempo para operar os elevadores à vontade. Houvesse o Minas, contudo, operado um Grupo Aéreo mais numeroso, talvez, com jatos, os elevadores centrais poderiam ter sido, de fato, um complicador. Nada obstante, mesmo os porta-aviões ingleses do pós Segunda Guerra Mundial, operaram Grupos Aéreos numerosos, com jatos, sem contar com as facilidades dos elevadores laterais, mesmo o Ark Royal R09, com os Phantoms. Problemas congênitos são assim mesmo; já que nascemos com eles, vamos nos adaptando...
HMS Ark Royal, Pantoms e elevadores centrais, na última comissão daquele navio, em 1979. Eu não registrei a fonte desta foto, mas bem pode ter sido pescada no grupo do FB, Aircraft Carriers of The Royal Navy. Mas eu não posso afirmar.

Comentários

  1. Gostaria de saber se, assim como na US Navy, os pilotos do GAE tinham o cabo ideal de enganche ( no caso dos EUA é o cabo numero 3) ainda mais sabendo que o NAeL possuía 6 cabos de parada. Parabéns pelo artigo. Muito interessante.

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    1. ....companheiro, de fato, aqui se seguia o protocolo da USN, conforme "check" com um dos pilotos, o Cel. Walkyr. Valia o cabo #3. Eu já havia lido sobre isto, mas não quis te responder sem confirmar. Muito obrigado pelo elogio, e pelo interesse na nossa unidade...

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